Cidade

Historiadora desenvolve roteiros sobre memória da ditadura militar

Uma historiadora de São Carlos desenvolveu um projeto inovador que transforma a memória da ditadura militar em uma experiência urbana interativa. Por meio de roteiros históricos guiados, a iniciativa convida a população a percorrer pontos emblemáticos da cidade que foram palco de episódios de repressão e resistência durante o regime militar.

A iniciativa, intitulada "Memória nas Ruas", tem como objetivo resgatar e preservar a história local, conectando as novas gerações com os acontecimentos que marcaram o país entre as décadas de 1960 e 1980. O projeto busca ir além dos livros didáticos, oferecendo uma imersão prática nos espaços urbanos que carregam as marcas desse período.

O Projeto "Memória nas Ruas"

Desenvolvido como parte de uma pesquisa de pós-doutorado, o "Memória nas Ruas" mapeia locais onde ocorreram prisões arbitrárias, manifestações pró-democracia e encontros de movimentos de resistência armada e cultural. O objetivo central é transformar o espaço urbano em um grande "museu a céu aberto", permitindo que os participantes vivenciem a história de forma sensorial e crítica.

Os roteiros são planejados para durar aproximadamente duas horas e meia, com percursos a pé que cobrem o centro histórico e bairros operários da cidade. Cada parada é acompanhada por relatos históricos, leituras de documentos da época e músicas que foram censuradas pelo regime. O projeto já atraiu a atenção de escolas municipais e estaduais, que planejam incluir as visitas no calendário extracurricular.

O Trabalho da Historiadora

Mestre e doutora em História pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), a pesquisadora responsável dedicou mais de uma década ao estudo do período militar. Em entrevista ao Revelando São Carlos, ela destacou a importância de "tirar a história dos livros e levar para as ruas, mostrando que a ditadura não foi um fenômeno abstrato, mas algo que aconteceu bem aqui, nos nossos bairros e praças".

"Muitos jovens desconhecem que a poucos quarteirões de suas casas existiram centros de tortura e que seus bisavôs ou avós podem ter participado de protestos históricos. Nosso papel é conectar essas gerações através da memória viva do espaço público", afirma a historiadora.

Ela ressalta que o projeto não tem cunho partidário, mas sim educativo e de direitos humanos. "A democracia se fortalece quando conhecemos os erros do passado. Não se trata de revanchismo, mas de aprendizado coletivo para que situações semelhantes nunca mais se repitam", completou.

Locais Visitados nos Roteiros

O ponto de partida do roteiro principal é a Praça XV de Novembro, no centro da cidade, onde ocorreram comícios e atos públicos. De lá, o grupo segue para a antiga sede da Polícia Federal na cidade, hoje desativada, mas que funcionou como centro de investigação e repressão política durante o regime.

  • Praça XV de Novembro: Local de comícios e manifestações pró-democracia.
  • Antiga Delegacia do DOPS: Onde presos políticos foram interrogados e torturados.
  • Sede da UFSCar (Área Central): Ponto de encontro de estudantes e professores perseguidos.
  • Bairro Vila Nery: Região operária com forte histórico de organização sindical e resistência.
  • Câmara Municipal: Espaço de debates políticos que foram silenciados pelo AI-5.

A historiadora explica que a escolha dos locais se baseou em documentos históricos, jornais da época e relatos orais de moradores antigos. "Conversamos com famílias que viveram o período e que guardam histórias incríveis de solidariedade e medo. Esse patrimônio imaterial é tão importante quanto os prédios históricos", destaca.

Relevância Social e Educativa

Em tempos de debates nacionais sobre memória e justiça de transição, roteiros como este são fundamentais para a consolidação democrática. Escolas e universidades de São Carlos e região têm demonstrado grande interesse em incluir os percursos em suas atividades curriculares, reforçando o papel da História na formação cidadã.

O projeto também oferece uma contrapartida social: todas as visitas são gratuitas e abertas ao público. Grupos de terceira idade, que vivenciaram o período, têm participado ativamente, compartilhando suas próprias memórias durante o trajeto. "É emocionante ver um idoso apontar para um prédio e contar que foi preso ali. Isso dá uma dimensão humana que nenhum livro pode transmitir", relata a organizadora.

Como Participar

As visitas guiadas acontecem mensalmente, sempre aos sábados pela manhã, e têm capacidade limitada para garantir a qualidade da experiência. As inscrições são gratuitas e devem ser feitas antecipadamente pelo site do projeto ou através das redes sociais da pesquisadora.

O cronograma completo das edições de 2025 já está disponível, incluindo roteiros especiais para o mês de abril, quando se celebra o Dia da Educação, e para maio, período de reflexão sobre os 60 anos do golpe militar. Escolas e grupos organizados podem solicitar agendamentos exclusivos em dias úteis.

Segundo a historiadora, a meta para este ano é expandir os roteiros para cidades vizinhas, como Araraquara e Ribeirão Preto, que também possuem um rico acervo de memória política a ser explorado. "A história não pode ser esquecida. Cada cidade tem seus fantasmas e seus heróis. Nosso dever é dar voz a eles", concluiu.

Redação

Equipe de jornalismo do Revelando São Carlos. Cobrimos os principais acontecimentos da cidade e região com seriedade e compromisso com a verdade.